Por: Charles Donald Zink
Este trabalho apresenta uma síntese das discussões em torno do tema “Estado contemporâneo e seus desafios, formulação de políticas públicas, gestão pública brasileira e a agenda de reformas” apresentadas em sala de aula, apoiada em anotações e textos discutidos com os mestrandos da disciplina “Estado, sociedade e políticas públicas”, e outras bibliografias relacionadas.
Para melhor compreender os desafios de Estado contemporâneo, faz-se necessário considerar as relações do Estado com a sociedade em diferentes momentos da história da humanidade.
As relações do Estado com a sociedade no período denominado de Idade Moderna, por exemplo, concentrou sua atuação sobre uma sociedade de classes e partidos políticos que as representavam, permeada pelo pragmatismo científico simbolizado pela Era do Conhecimento (RAMOS, 2011, informação verbal).
O confronto entre o Estado liberal e o Estado socialista resultou no Estado promotor do welfare-state do capitalismo e superado pelo neoliberalismo nos anos 70-80 (RAMOS, 2011, informação verbal).
Ao abordar essa questão, Bresser Pereira (2006) comenta que “na década de 80, logo após a eclosão da crise de endividamento internacional, o tema que prendeu a atenção de políticos e formuladores de políticas públicas em todo mundo foi o ajuste estrutural (...)” (p.21). Segundo o mesmo autor, esse ajuste estrutural representava “(...) em termos mais analíticos, o ajuste fiscal e as reforma orientadas para o mercado" (p.21).
Assim como a ruptura da Idade Média para a Idade Moderna foi marcada pela quebra de referências entre razão e fé, a ruptura para a pós-modernidade implicou na quebra das referências da Idade Moderna, entre elas, a de que o Estado a tudo e a todos provê como promotor do bem-estar social. Essa referência acabou sublimada a partir de 1974 com a primeira crise do petróleo, desencadeando na crise do welfare-state e com ela, na crise do Estado. Como conseqüência tem-se a quebra do paradigma de que a ciência seria a solução para todos os problemas da humanidade, abalando as certezas da humanidade em relação ao conhecimento até então produzido (RAMOS, 2011, informação verbal).
Vasconcelos (2010), ao defender o pensamento sistêmico como novo paradigma metodológico para o estudo dos fenômenos sociais e construção da ciência, citando autores como Monod, Rifkin, Russell, Maturana, argumenta que “tem-se falado muito sobre as crises vividas hoje pela sociedade contemporânea, muitas vezes associando-as ao fato de a sociedade ter adotado a ciência como base de sua organização” (p.18).
A sociedade pós-moderna, exsurge como resultado de um mundo mais globalizado como efeito de economias nacionais mais interdependentes em face da disponibilização e otimização global dos fatores de produção e fruto das radicais transformações promovidas pela comunicação instantânea, simbolizada pela Era da Informação (RAMOS, 2011, informação verbal).
Para Bresser Pereira (2006), apesar de o ajuste estrutural seguir figurando como principal objetivo, a ênfase dos policy-makers “nos anos 90(...) deslocou-se para a reforma do Estado, particularmente para a reforma administrativa. A questão central hoje é como reconstruir o Estado – como redefinir um novo Estado em um mundo globalizado” (p.21).
A atual crise do Estado contemporâneo expõe a dificuldade de perceber e atender a pluralidade das atuais demandas da sociedade, evidenciando a necessidade de reformas. Nessa direção colhe-se de Bresser Pereira e Grau (1999, prólogo) que, "A reforma do Estado, processo reclamado por múltiplos setores, tem também múltiplas conotações. [...] paulatinamente, alcançam-se alguns consensos básicos. [...] nas novas condições históricas, o Estado necessita renovar sua própria institucionalidade para poder servir melhor ao deslanche da sociedade e, em última instância, ao desenvolvimento sócio-econômico. [...] para tais fins, é preciso não só que o aparato do Estado se torne realmente público, mas também que o espaço do público não se esgote no estatal."
No Brasil, a partir da Constituição de 1988, consolida-se o entendimento de que as políticas públicas não sejam responsabilidade exclusiva do Estado. Outros atores qualificados, provindos da sociedade e do Estado, passam a edificar as políticas públicas e a agir como policy-makers, participando da agenda política (RAMOS, 2011, informação verbal).
Preenchendo o vácuo deixado pelo período do regime militar (1964 a 1985), aflora - como conquista da sociedade na chama da Constituição Cidadã de 1988 -, o processo de redemocratização do Brasil, admitindo e adotando novas institucionalidades para suprir as carências deixadas pelo Estado e as lacunas existentes no Estado, em face da percepção social de um esvaziamento político das instituições tradicionais da esfera pública (RAMOS, 2011, informação verbal).
A concepção dialógica de gestão abre espaços para o debate do novo não-institucional político, onde forças emergentes convoladas em sociedade civil organizada representam-na sob a forma de sindicatos, fóruns, OSCIPS, OS, ONGS, entre outras. Essas forças resgatam o sentido da cidadania e a contextualizam para a construção de um novo cenário institucional - tanto pela percepção e análise de novas institucionalidades, quanto pela formulação de novos valores, a exemplo da accountability e políticos gestores. Esse artifício, percebido, concebido e implementado pelo Estado e a sociedade, encaminha-se como processo de descentralização das instituições do Estado, onde as concepções de esquerda (modelo participativo) ou de direita (modelo tecnocrático tradicional) tendem a perder espaço para ideais que considerem uma mescla de ambos (RAMOS, 2011, informação verbal).
No entanto, apesar dos avanços que já se verificam, o maior desafio do Estado contemporâneo ainda consiste em superar a retórica da perspectiva romântica da gestão participativa e passar a atuar de forma mais consistente em modelagens de gestão que oportunizem acesso e considerem valores dos mais amplos segmentos da sociedade (RAMOS, 2011, informação verbal).
De toda forma, a conjugação dos interesses da sociedade acaba refletida no Estado sob a forma de políticas públicas, que em última análise, correspondem ao conjunto de regramentos da vida em sociedade e buscam atender aos anseios da mesma.
Para melhor compreender os desafios de Estado contemporâneo, faz-se necessário considerar as relações do Estado com a sociedade em diferentes momentos da história da humanidade.
As relações do Estado com a sociedade no período denominado de Idade Moderna, por exemplo, concentrou sua atuação sobre uma sociedade de classes e partidos políticos que as representavam, permeada pelo pragmatismo científico simbolizado pela Era do Conhecimento (RAMOS, 2011, informação verbal).
O confronto entre o Estado liberal e o Estado socialista resultou no Estado promotor do welfare-state do capitalismo e superado pelo neoliberalismo nos anos 70-80 (RAMOS, 2011, informação verbal).
Ao abordar essa questão, Bresser Pereira (2006) comenta que “na década de 80, logo após a eclosão da crise de endividamento internacional, o tema que prendeu a atenção de políticos e formuladores de políticas públicas em todo mundo foi o ajuste estrutural (...)” (p.21). Segundo o mesmo autor, esse ajuste estrutural representava “(...) em termos mais analíticos, o ajuste fiscal e as reforma orientadas para o mercado" (p.21).
Assim como a ruptura da Idade Média para a Idade Moderna foi marcada pela quebra de referências entre razão e fé, a ruptura para a pós-modernidade implicou na quebra das referências da Idade Moderna, entre elas, a de que o Estado a tudo e a todos provê como promotor do bem-estar social. Essa referência acabou sublimada a partir de 1974 com a primeira crise do petróleo, desencadeando na crise do welfare-state e com ela, na crise do Estado. Como conseqüência tem-se a quebra do paradigma de que a ciência seria a solução para todos os problemas da humanidade, abalando as certezas da humanidade em relação ao conhecimento até então produzido (RAMOS, 2011, informação verbal).
Vasconcelos (2010), ao defender o pensamento sistêmico como novo paradigma metodológico para o estudo dos fenômenos sociais e construção da ciência, citando autores como Monod, Rifkin, Russell, Maturana, argumenta que “tem-se falado muito sobre as crises vividas hoje pela sociedade contemporânea, muitas vezes associando-as ao fato de a sociedade ter adotado a ciência como base de sua organização” (p.18).
A sociedade pós-moderna, exsurge como resultado de um mundo mais globalizado como efeito de economias nacionais mais interdependentes em face da disponibilização e otimização global dos fatores de produção e fruto das radicais transformações promovidas pela comunicação instantânea, simbolizada pela Era da Informação (RAMOS, 2011, informação verbal).
Para Bresser Pereira (2006), apesar de o ajuste estrutural seguir figurando como principal objetivo, a ênfase dos policy-makers “nos anos 90(...) deslocou-se para a reforma do Estado, particularmente para a reforma administrativa. A questão central hoje é como reconstruir o Estado – como redefinir um novo Estado em um mundo globalizado” (p.21).
A atual crise do Estado contemporâneo expõe a dificuldade de perceber e atender a pluralidade das atuais demandas da sociedade, evidenciando a necessidade de reformas. Nessa direção colhe-se de Bresser Pereira e Grau (1999, prólogo) que, "A reforma do Estado, processo reclamado por múltiplos setores, tem também múltiplas conotações. [...] paulatinamente, alcançam-se alguns consensos básicos. [...] nas novas condições históricas, o Estado necessita renovar sua própria institucionalidade para poder servir melhor ao deslanche da sociedade e, em última instância, ao desenvolvimento sócio-econômico. [...] para tais fins, é preciso não só que o aparato do Estado se torne realmente público, mas também que o espaço do público não se esgote no estatal."
No Brasil, a partir da Constituição de 1988, consolida-se o entendimento de que as políticas públicas não sejam responsabilidade exclusiva do Estado. Outros atores qualificados, provindos da sociedade e do Estado, passam a edificar as políticas públicas e a agir como policy-makers, participando da agenda política (RAMOS, 2011, informação verbal).
Preenchendo o vácuo deixado pelo período do regime militar (1964 a 1985), aflora - como conquista da sociedade na chama da Constituição Cidadã de 1988 -, o processo de redemocratização do Brasil, admitindo e adotando novas institucionalidades para suprir as carências deixadas pelo Estado e as lacunas existentes no Estado, em face da percepção social de um esvaziamento político das instituições tradicionais da esfera pública (RAMOS, 2011, informação verbal).
A concepção dialógica de gestão abre espaços para o debate do novo não-institucional político, onde forças emergentes convoladas em sociedade civil organizada representam-na sob a forma de sindicatos, fóruns, OSCIPS, OS, ONGS, entre outras. Essas forças resgatam o sentido da cidadania e a contextualizam para a construção de um novo cenário institucional - tanto pela percepção e análise de novas institucionalidades, quanto pela formulação de novos valores, a exemplo da accountability e políticos gestores. Esse artifício, percebido, concebido e implementado pelo Estado e a sociedade, encaminha-se como processo de descentralização das instituições do Estado, onde as concepções de esquerda (modelo participativo) ou de direita (modelo tecnocrático tradicional) tendem a perder espaço para ideais que considerem uma mescla de ambos (RAMOS, 2011, informação verbal).
No entanto, apesar dos avanços que já se verificam, o maior desafio do Estado contemporâneo ainda consiste em superar a retórica da perspectiva romântica da gestão participativa e passar a atuar de forma mais consistente em modelagens de gestão que oportunizem acesso e considerem valores dos mais amplos segmentos da sociedade (RAMOS, 2011, informação verbal).
De toda forma, a conjugação dos interesses da sociedade acaba refletida no Estado sob a forma de políticas públicas, que em última análise, correspondem ao conjunto de regramentos da vida em sociedade e buscam atender aos anseios da mesma.
Nesse diapasão, a formulação das políticas públicas segue uma lógica de construção a partir de eventos que lhe dão causa, e para as quais se consideram diferentes propostas de concepção e canais de implantação, em face da diversidade e influências dos atores sociais.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos. Gestão do setor público: estratégia e estrutura para um novo Estado. (p.21-38) In BREBRESSER PEREIRA, Luiz Carlos; SPINK, Peter (orgs). Reforma do Estado e administração pública gerencial. 7ª. ed. – Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2006.
BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos; GRAU, Nuria Cunill (orgs.). O público não-estatal na reforma do Estado (coletânea). Rio de Janeiro, 1999. Disponível em:
RAMOS, Flavio. Estado, sociedade e políticas públicas. Itajaí: Aula Expositiva e Debates, 2011.
VASCONCELLOS, Maria José Esteves de. Pensamento Sistêmico: o novo paradigma da ciência. 9ª. ed. – Campinas: Ed. Papírus, 2010.
